Como diz a ombudsman da Folha de S.Paulo, dada a extensão do caso Cachoeira, a imprensa “tem o dever de apurar tudo”, até os seus vínculos com a mídia
Em meados do mês passado, a revista Veja transcreveu um áudio de conversa na qual seu chefe de sucursal em Brasília, Policarpo Júnior, é citado por Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso em 29 de fevereiro junto com mais algumas dezenas de pessoas acusadas de contravenção e crimes diversos, entre os quais a exploração ilegal do jogo, corrupção e lavagem de dinheiro. A gravação das conversas de Cachoeira ao longo de meses pela Polícia Federal (PF), na chamada Operação Montecarlo, levou à denúncia de que o senador Demóstenes Torres (sem partido–GO) e outros políticos estariam ligados à defesa dos interesses do chefão dos jogos ilegais. Inúmeras gravações de conversas de Torres com Cachoeira comprovariam esses vínculos.
A operação serviu também para mostrar que o problema era antigo. Descobriu-se que relatório com gravações do mesmo tipo tinha sido enviado três anos antes ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que não tomou nenhuma providência para denunciar Torres e outros dois deputados federais envolvidos. O acúmulo de irregularidades culminou, no mês passado, na criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), composta por membros da Câmara dos Deputados e do Senado, para apontar os culpados à Justiça.
Gurgel é o procurador que fez a denúncia final do chamado mensalão, o grande escândalo que abalou o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por sua vez, Cachoeira tem um passado de ações que também o ligam ao mensalão. Ele gravou, em 2002, o então chefe da loteria do estado do Rio de Janeiro, Waldomiro Diniz, pedindo contribuições eleitorais e uma comissão para si próprio. Cachoeira divulgou a fita em 2004, na data de aniversário do Partido dos Trabalhadores (PT), quando Diniz era assessor do então chefe da Casa Civil, José Dirceu. O episódio foi considerado o prelúdio do mensalão.
A revista Veja pode ser vista como a grande denunciante do mensalão. A publicação transcreveu a gravação, feita pela PF em 8 de julho do ano passado, com um propósito: defender o trabalho de seu funcionário Policarpo. A transcrição é de uma conversa de Cachoeira com Jairo Martins, um ex-funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), personagem relativamente famoso por ter sido quem gravou, em 2005, Maurício Marinho, então chefe do Departamento de Compras dos Correios, recebendo propina, na operação que efetivamente deu início ao mensalão. Segundo a PF, Martins, hoje, trabalha para Cachoeira. A relação de Policarpo com Martins tem pelo menos seis anos. O chefe de Veja em Brasília foi quem divulgou a gravação feita por Martins com Marinho em 2005.
A transcrição feita por Veja é longa, mas o trecho a seguir dá uma ideia do seu teor. Cachoeira diz a Martins, referindo-se a um “cara”, que é Policarpo: “Põe um trem na sua cabeça. Esse cara aí não vai fazer favor pra você nunca isoladamente, sabe? A gente tem que trabalhar com ele em grupo. Porque os grandes furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz”. Mais adiante, Cachoeira diz, referindo-se às denúncias de corrupção veiculadas por Veja que provocaram várias quedas de ministro no governo da presidente Dilma Rousseff: “Esse estouro aí que aconteceu foi a gente. Foi a gente. Quer dizer: mais um. Ô Jairo, conta quantos foram. Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do c...[palavrão] pro Brasil, essa corrupção aí. Quantos já foram, rapaz. E tudo via Policarpo”.
Outro auxiliar de Cachoeira no esquema de fazer espionagem para conseguir denúncias com repercussão na imprensa e promover seus interesses era Idalberto Araujo, que aparece nas gravações da PF como o Dadá. É um sargento reformado da área de inteligência da Força Aérea Brasileira. Segundo a revista Época, ele começou seus trabalhos de espionagem no início do processo de redemocratização, quando monitorou as atividades do advogado e ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh junto ao Comitê Brasileiro de Solidariedade aos Povos da América Latina e fez as primeiras infiltrações no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para facilitar o acompanhamento “das ações políticas pela reforma agrária e invasão de fazendas”. Cachoeira o contratou a partir de 2008, quando Dadá caiu em desgraça após a descoberta da participação de agentes que não eram da PF nas investigações da Operação Satiagraha, contra o financista Daniel Dantas. É apresentado como amigo por Amaury Ribeiro Júnior, o autor do livro A privataria tucana (Geração Editorial, 2011), com o qual chegou a fazer os primeiros esforços para constituir um grupo de inteligência na campanha eleitoral de Dilma. Logo o grupo foi desfeito por iniciativa do presidente nacional do PT, Rui Falcão.
O processo Cachoeira–Demóstenes Torres corre sob segredo de justiça. Os autos foram divididos em duas partes. Uma, que envolve as atividades de Cachoeira e inclui vários de seus subordinados, mais delegados, oficiais e outros funcionários das polícias Civil e Militar, está sob a guarda da Justiça Federal, seção de Goiás, 11ª Vara. Outra, que envolve o senador Torres, que tem foro privilegiado, está no Supremo Tribunal Federal (STF). Cerca de 15 mil páginas dos autos do processo que corre em Goiás já estavam totalmente disponíveis em meados do mês passado. Vazaram, de alguma forma, para a internet. Mas não contêm os áudios correspondentes. Nesse material, a conversa transcrita por Veja aparece, mas apenas num resumo de três linhas. A revista deve ter tido acesso à gravação da conversa por outros canais.
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