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Retrato do Brasil - Edição n° 37
A ESPERANÇA DOS FINANCISTAS
A ESPERANÇA DOS FINANCISTAS

O processo de financeirização dos EUA se desenvolveu até que explodiu. Agora, a "Lei de Reforma de Wall Street" vai consertar tudo, e o país seguirá na liderança. E o Brasil, junto, como um exemplo. Isso é um sonho. Ou será um pesadelo?

No último encontro do G-20 – o grupo dos países mais ricos e alguns emergentes, como o Brasil –, o presidente americano Barack Obama referiu-se à "Lei de Reforma de Wall Street e de Proteção ao Consumidor", que fez uma revisão da legislação financeira de seu país com o objetivo de prevenir desastre semelhante ao ocorrido em 2008. E disse que os americanos estavam prontos a "liderar pelo exemplo". Pode-se traduzir essa afirmação da seguinte forma: os EUA acham que podem continuar na vanguarda de um processo de financeirização, que iniciaram há cerca de três décadas, com uma lei nova, com tudo mais se mantendo como dantes.

De fato, o texto da nova lei, acordado entre Obama e líderes do Congresso (ver "Nas mãos dos gatos", à pág. 16), representa um enorme esforço de resposta à crise. Ainda assim, há pelo menos dois problemas.

O primeiro é que a crise foi abortada; as principais instituições financeiras foram salvas pelos Estados capitalistas centrais com gigantescas infusões de dinheiro. Mas esses Estados continuam no comando do processo, exatamente porque, no essencial, o sistema não tem alternativa. E mais: não quer a mudança.

O que fazer, por exemplo, com o Goldman Sachs, a quintessência da sagacidade financeira de Wall Street, o maior dos bancos americanos de investimento que, na crise, teve de se metamorfosear, de um dia para outro, em banco comercial, para ficar sob a proteção do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e do Tesouro americano?

No final de abril, Lloyd Blankfein, presidente do Goldman, depôs no Senado americano, por cerca de dez horas, numa das várias audiências de preparação da nova lei das finanças. Na ocasião, o senador Carl Levin mostrou, por A mais B, que, desde 2007, o ano em que a crise se instalou, o Goldman, sob a batuta de Blankfein, ficou apostando short, como se diz na gíria do mercado: ganhando dinheiro em operações de curto prazo com títulos de longo prazo que ele próprio vendia aos seus clientes.

Quando aposta short, um operador de mercado vende um título financeiro hoje para comprá-lo pouco depois mais barato, porque sabe que a tendência é de que seu preço caia. Mas, se o operador sabe que a tendência do preço do papel, a longo prazo, é cair, por que, então, vende esse tipo de papel de longo prazo a um cliente?

Com uma extensa documentação do próprio Goldman, exibida implacavelmente para Blankfein durante quase uma hora, Levin mostrou que o banco não agiu assim apenas uma vez, mas realizou sistematicamente esse tipo de negócio durante o período. E isso o ajudou a se sair menos mal na crise. Isso pode até ser legal, disse Levin – mas é justo, moral, ético?

Na reforma de Obama, o Goldman e os outros grandes bancos americanos foram poupados. Paul Volcker, o grande assessor do presidente na fase final de preparação da lei, queria proibir os bancos, tanto os comerciais como os de investimento, de realizar operações como as do Goldman. Também os proibia, por exemplo, de operarem com derivativos – contratos com cláusulas de sucesso acopladas a outros eventos, como variações de taxas de juros, moedas, preços de commodities, índices de ações.

RESULTADO ESPERADO
Todas essas proibições foram transformadas em limitações e aprovadas de maneira aguada. A revista semanal britânica The Economist diz que a limitação aos derivativos não deve afetar mais do que 10% do valor suposto desses negócios atualmente nas carteiras dos bancos, estimado em 218 trilhões de dólares, várias vezes o PIB dos EUA.

O resultado da reforma era previsível. A elite política e financeira americana, no essencial, acredita que o grande trunfo do país é essa sua "indústria" e a enorme liberdade que ela teve nesses últimos trinta anos para criar novos "produtos". Indústria deixou de ser para essa elite a geração de riqueza com trabalho humano, matérias-primas e máquinas sofisticadas. A engrenagem que promove a especulação com papéis financeiros também é indústria.

Os americanos passaram os anos 1930 tentando costurar seu sistema financeiro, detonado pelo crash de 1929. Começaram com a "Lei dos Bancos", de 1933, que introduziu a garantia dos depósitos federais até certo limite e separou os bancos comerciais dos bancos de investimento. A partir do final dos anos 1970 iniciaram a desregulamentação. Ela culminou, em 1999, na "Lei de Modernização dos Serviços Financeiros", que revogou a norma de 1933 e permitiu que os bancos comerciais, os de investimento e as seguradoras se fundissem.

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