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Retrato do Brasil - Edição n° 90
O mensalão 2 está quase de pé
O mensalão 2 está quase de pé

O novo “maior escândalo da história da República” já está praticamente armado

Os leitores de Retrato do Brasil já conhecem bem a história do “mensalão 1”:

• O PT cometera um crime eleitoral: a montagem de um caixa dois, que irrigou a campanha de duas dúzias de deputados, a partir de empréstimos tomados de bancos mineiros — pela direção do partido, com as assinaturas de dois então altos dirigentes, o tesoureiro Delúbio Soares e o presidente José Genoino —, mas intermediados por empresas ligadas a três publicitários (Marcos Valério, Ramon Hollerbach e Cristiano Paz);

• A partir desses fatos, a oposição e a grande mídia conservadora inventaram um desvio de cerca de 75 milhões de reais do Banco do Brasil (BB), que teria sido cometido sob o comando de Henrique Pizzolato, petista que então era diretor de marketing da instituição;

• Com base nessa falsidade, e a despeito de a falsificação ser facílima de demonstrar, como o fizemos em uma série de grandes reportagens, o mensalão 1 foi criado e aprovado pela opinião pública mal informada e pela Justiça, conduzida pela batuta do espetaculoso e arguto ministro Joaquim Barbosa.

Segundo essa versão fantasiosa, os empréstimos dos bancos mineiros seriam falsos, e o dinheiro, de fato, saíra dos cofres públicos, do BB, numa armação espetacular que envolveria três quadrilhas: uma política, outra de banqueiros e outra de operadores publicitários, todas comandadas por José Dirceu, chefe da Casa Civil da Presidência da República no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Como numa sequência, o “mensalão 2” já está praticamente armado: nas denúncias apresentadas por uma força-tarefa da chamada Operação Lava-Jato (ver “O ‘escândalo Petrobras’” nesta edição), também se fala em três organizações criminosas: um cartel de empreiteiros, armado para extrair contratos superfaturados da Petrobras; um conjunto de funcionários da empresa, corrompidos para ajudar os empresários nessa extorsão; e um bando de operadores do esquema, formado por doleiros, donos de empresas de fachada e homens-mulas transportadores clandestinos de dinheiro para políticos que comandariam a operação. E, acima de tudo isso, de novo, para gáudio da grande mídia conservadora, o Partido dos Trabalhadores. O PT ficaria com 3% de todos os contratos da estatal para se perpetuar no poder. E, em alguns casos, quando a diretoria da área da empresa em que o contrato era feito tinha sido dada a um partido político da coligação governista, um terço desse butim seria distribuído entre políticos do aliado.

Essa história foi contada ao País inteiro num momento especial: no intervalo entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial do ano passado, quando a oposição parecia ter grandes chances de derrotar Dilma Rousseff, a candidata petista. Os narradores da história foram dois personagens improváveis: um ladrão, Paulo Roberto Costa, e um comparsa seu, Alberto Youssef. E o que é mais espantoso: os depoimentos, a despeito de serem “delações premiadas” supostamente sigilosas até que as denúncias nelas contidas fossem comprovadas, foram conduzidos pelo juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba, Sérgio Moro, onde tramitam as ações penais da Lava-Jato. Como que sob sua direção, foram transmitidos no mesmo dia pelo Jornal Nacional, da TV Globo, e pelas outras grandes redes de TV nacionais.

O que causa espanto? Uma delação premiada é o relato de um criminoso confesso que denuncia seus comparsas para que, verificada a veracidade de suas informações, possa receber uma redução de sua pena. Não é, com certeza, um palanque para esses criminosos divulgarem hipóteses a respeito do comportamento de outras pessoas, do qual foram informados por ouvir dizer. Basicamente, a teoria que toda a grande mídia conservadora divulga ainda hoje a respeito desse mensalão 2 vem do que disseram Costa e Youssef, com a ajuda de Moro: Costa roubava para si e para o PP; Youssef o ajudava nessa tarefa e, do mesmo modo, ficava com uma parte. Todos os outros diretores da Petrobras fariam o mesmo, segundo a dupla de ladrões, que não apresenta uma só prova de que isso acontecia, como se pode ver na descrição detalhada dos depoimentos dos dois publicada no artigo já mencionado desta edição.

A Lava-Jato já foi exaustivamente apresentada como o grande escândalo da história da República e, essencialmente, um esforço do PT para manter-se no poder por meio do financiamento clandestino de seus aliados com dinheiro público. Até agora, no entanto, é apenas uma operação que apanhou uma dupla de ladrões espertos, operando dentro de uma das maiores empresas do mundo e em cuja perseguição, ao longo de já mais de ano e meio, a polícia foi encontrando uma trilha de crimes similares ou conexos e cerca de meia centena de contraventores que, se espera, serão devidamente processados e punidos.

No “mensalão 1”, o comportamento do governo petista ajudou na criação do escândalo porque, em nenhum momento, ele fez uma devassa no BB para provar que não tinha havido o desvio dos tais 75 milhões de reais do banco. No caso do “mensalão 2”, há indícios de que está ocorrendo um fenômeno diferente, mas motivado pelo mesmo medo que o governo parece ter de enfrentar a opinião formada pela grande mídia conservadora. Quando as duas CPIs do Congresso sobre a Petrobras foram instaladas, no final do primeiro semestre do ano passado, a estatal teve um comportamento aguerrido e, inicialmente, passou a publicar em seu site todos os depoimentos de seus dirigentes, o que acabou sendo um contraponto ao noticiário da grande mídia, sistematicamente enviesado contra a companhia. Com a prisão de Costa e o agravamento dos ataques à empresa, a Petrobras determinou, em abril, a abertura de vários inquéritos internos para investigar as denúncias apresentadas.

Dessa vez, no entanto, não manteve a política de divulgar amplamente os depoimentos e os resultados obtidos, mas passou a fornecê-los à força-tarefa da Lava-Jato. O resultado foi muito ruim, porque os investigadores, instigados pela grande mídia, trabalham como se buscassem as provas das teses que a dupla Costa–Youssef inventou e magnificam todos os detalhes que parecem apontar nessa direção, sem uma preocupação maior em construir uma avaliação mais precisa sobre o escândalo a partir dos fatos realmente mais relevantes.

O caso da investigação interna da Petrobras sobre a refinaria Abreu e Lima é um exemplo de como a empresa, ao recuar de sua posição anterior de dar ampla divulgação aos resultados de suas investigações próprias e, ao contrário, apenas repassá-las para as autoridades policiais e da Justiça, está atirando contra seus próprios pés. A investigação da Petrobras foi concluída em 7 de novembro e repassada aos investigadores da Lava-Jato, mas não foi divulgada pela companhia. A partir de então, começaram a surgir nos grandes jornais e na TV ataques à direção da Petrobras, que teria sido omissa em relação a denúncias que uma funcionária, Venina da Fonseca, teria feito quanto a irregularidades observadas na companhia a partir de 2009. Venina foi objeto de artigo de página inteira publicado pelo diário Valor Econômico, um dos mais importantes do País, no qual ela culpou os dirigentes da Petrobras — a ex-presidente, Graça Foster, seu antecessor imediato, José Sérgio Gabrielli, e outros diretores — pela não apuração dos escândalos que teria denunciado. A seguir, apareceu numa entrevista ao Fantástico, o programa de domingo à noite da TV Globo, repetindo as acusações e se dizendo perseguida e ameaçada. E continuou nas manchetes dos jornais e revistas até recentemente.

A revista Veja datada de 21 de janeiro, depois de já ter publicado vários outros artigos com a argumentação de Venina, ainda apresentou, num “Dossiê Venina”, detalhes de uma denúncia específica sobre verbas de promoção dadas pela Petrobras a escolas de samba do Rio de Janeiro no carnaval de 2008, que teriam sido determinadas — irregularmente, diga-se de passagem — pelo próprio presidente Lula por meio de Geovane de Morais, funcionário do setor de comunicações da diretoria de Abastecimento, dirigida por Costa. Para completar, o Valor ainda publicou recentemente mais um artigo de página inteira com uma espécie de síntese do material do áudio de quatro horas do depoimento de Morais a uma comissão interna de investigação da Petrobras, cujas conclusões levaram à sua demissão. O artigo resumiu os fatos de modo a destacar a interferência do presidente Lula na história do dinheiro repassado às escolas de samba na época. Poder-se-ia dizer: são detalhes, mas eles podem ser importantes, porque, como se diz, o diabo mora neles.

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