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Retrato do Brasil - Edição n° 85
O MASSACRE DE GAZA
O MASSACRE DE GAZA
O novo ataque de Israel é parte de um processo de usurpação: o governo Netanyahu quer apagar os compromissos assumidos para a criação de um Estado palestino. Quer um só Estado na região, que realizaria o milagre de ser democrático... e judeu No início deste mês, após três semanas de ataques das Forças Armadas de Israel e duas depois da invasão por terra do território palestino de Gaza, cerca de 1.450 pessoas tinham sido mortas, das quais apenas 64 eram israelenses – e, entre esses, só três civis. Do lado palestino, a imensa maioria era de não combatentes, pessoas que foram atingidas em suas casas, nas ruas, na praia, em mercados, nas escolas, em mosteiros. O argumento de Israel para justificar os locais atingidos e a enorme quantidade de mortos civis palestinos era a perversidade do Hamas e da Jihad Islâmica, as duas organizações armadas atuantes em Gaza, responsáveis pelo disparo de morteiros e diversos tipos de foguetes contra o território israelense. Tais militantes estavam “atacando civis e se escondendo atrás de civis”. “Isso é um duplo crime de guerra”, disse, segundo o repórter do diário The Washington Post William Booth, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. A explicação é simples, mas falsa. Gaza é uma faixa de terra estendida na costa do Mediterrâneo, de sudeste a nordeste, entre o Egito e Israel, com entre 5 e 11 quilômetros de largura e cerca de 40 quilômetros de comprimento. Em Gaza vive 1,8 milhão de pessoas. Suas fronteiras terrestres são delimitadas, ao sul, pelo Egito, e a norte e a oeste, por Israel, com paredões de poucas entradas, como o antigo Muro de Berlim. A saída que resta à população, pelo mar, nesse conflito também está fechada – pela marinha de guerra israelense. No início de agosto, tropas, tanques, equipamentos e munição israelenses entraram pelos portões nos muros do norte e do oeste e ocupavam uma faixa de cerca de 40% de todo o território. É certo, portanto, que a população de Gaza não tem para onde fugir. O território vinha sendo dirigido pelo Hamas até o final do primeiro trimestre deste ano. Em 2007, essa corrente do movimento de resistência palestino – religiosa, fundamentalista, mais belicista – venceu as eleições no local, derrotando o Fatah – organização mais antiga, criada no final dos anos 1950, de natureza laica, mais política e articulada internacionalmente. A minúscula Gaza, a leste, dirigida pelo Hamas, e a Cisjordânia, o pedaço maior do território palestino, a oeste, dirigida pelo Fatah, formariam o futuro Estado da Palestina, dentro de um plano razoavelmente articulado internamente entre as organizações palestinas e mesmo com razoável apoio em Israel, nos EUA, na União Europeia e na Organização das Nações Unidas (ONU). O apoio tácito de Israel a essa ideia dos dois Estados está aparentemente claro pela desocupação militar de Gaza em 2005. E o acordo entre os palestinos – basicamente entre o Hamas e o Fatah, os grupos maiores – está expresso pela disputa eleitoral pacífica entre eles em Gaza, após anos de conflitos armados. Com o governo de Gaza sob seu controle, com 52 mil funcionários pagos, em última instância, com fundos internacionais captados em função do plano de paz maior, o Hamas teria traído essa saída pacífica para o impasse em que a região vive desde 1947, quando se criou, em terras habitadas por palestinos, o “lar dos judeus”. Segundo informações dos serviços de inteligência israelenses, entre 2007 e a invasão de agora, em vez de usar os recursos disponíveis para o desenvolvimento econômico e social de Gaza, o Hamas passou a construir uma teia de túneis na área com o objetivo principal de atacar Israel. Neles, junto com a Jihad Islâmica, acumulou estimados 11 mil foguetes, a maioria de fabricação caseira, com pouco alcance. Mas haveria 600 desses artefatos, mais modernos, montados com apoio técnico e militar obtido pela Jihad ou pelo Hamas no Irã e na Síria, com alcance de 75 quilômetros, o que lhes permitiria, a partir de Gaza, atingir Tel Aviv, a capital israelense. Existiriam também cerca de cem com alcance ainda maior, de mais de 100 quilômetros, o que colocaria Haifa, a principal cidade do norte de Israel, a 160 quilômetros de Gaza, sob seu alcance. Pelo balanço divulgado por seus serviços de inteligência no início deste mês, o Exército israelense já descobriu 32 túneis, feitos de concreto e abastecidos com eletricidade, oxigênio e equipamentos de comunicação, que começam na porta de edifícios e se estendem por todo o território de Gaza, até Israel. O fato de o Hamas ter construído túneis a partir dos quais pode utilizar foguetes para atacar Israel não justifica as baixas civis causadas pela ofensiva israelense. Como declarou ao diário Correio Braziliense Julio Miragaya, do Conselho Federal de Economia, citando seu filho que mora em Israel: se Israel combate o terrorismo porque ele acarreta a morte de civis, por que faz um ataque como o de Gaza, matando centenas e centenas de civis? Israel diz que adverte os moradores quanto a seus ataques usando todos os meios possíveis: folhetos despejados de avião, mensagens por celular. Um repórter da Folha de S.Paulo, Diogo Barcito, enviado a Gaza, contou detalhes dessas operações. Um porta-voz do Exército de Israel que o atendeu mostrou-lhe uma das mensagens enviadas a um morador de Gaza: “Você fala hebraico? Como você está? O Exercito de Israel precisa atacar um prédio perto daí. Avise todo mundo, porque em cinco minutos vamos bombardear essa área”. Para onde esse cidadão poderia fugir? Mesmo que queiram afastar-se dos beligerantes, os palestinos não têm muito como nem para onde fugir. Veja-se, por exemplo, o caso do bombardeio de uma escola no campo de refugiados de Jabaliya, em Gaza, na qual, no último dia do mês passado, estavam abrigadas, sob controle da UNRWA (a sigla em inglês para a agência de proteção a refugiados de guerra das Nações Unidas), mais de 3 mil pessoas que fugiam dos ataques israelenses. O porta-voz da agência, Christopher Guness, disse aos jornais que por 17 vezes os funcionários da UNRWA notificaram as Forças Armadas israelenses sobre a exata posição da escola e sobre o número de refugiados que ela abrigava. Mesmo assim, o local foi bombardeado, 15 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Outro morador de Gaza, Ziadi Bakri, de 26 anos, ouvido pelo Correio Braziliense, disse: “A mãe, o irmão e a mulher de um amigo meu morreram em um bombardeio na semana passada. A maior parte das pessoas assassinadas em Gaza é de crianças e mulheres. Isso não é humano”. Infelizmente, é. A guerra, na qual morrem sistematicamente milhares ou milhões de civis não combatentes, a despeito das regras criadas para protegê-los nessas ocasiões, é uma forma de tentar resolver problemas. O Fatah – que em meados dos anos 1960 conseguiu articular uma frente de militantes para combater, se necessário pelas armas, a ocupação de terras palestinas em áreas bem além das destinadas, por decisão da ONU, a ser o lar dos judeus – se formou por inspiração dos movimentos de libertação nacional dos anos anteriores na Argélia e no Vietnã, por exemplo. Os combatentes pela independência do Vietnã, depois da instalação, no país, de bases militares dos EUA, até conseguirem derrotar os invasores – cujos argumentos contra os guerrilheiros não eram melhores que os atuais, dos israelenses – e tiveram estimadamente 1 milhão de mortos, contra apenas cerca de 50 mil baixas entre os soldados americanos.
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